Esta crônica foi escrita no dia de Lakshmi do ano de 2010, mas continua atual para mim.
O dia escolhido para entrar em comunhão com a natureza,
foi exatamente quando estava se abrindo um portal na Índia, a entrada da
prosperidade, dia da mãe divina Annapurna e Lakshmi, os aspectos
da abundancia dos alimentos e da prosperidade material, para
termos mais tempo e nos devotar a existência que podemos chamar de Deus.
Cheguei mais cedo e fui para o meu lugar habitual,
perto dos músicos, perto do flautista, gosto de ficar escutando o som doce da
flauta.
Coloquei em meu serviço o conhecimento da respiração,
fiz para alcançar uma concentração maior, pois é muito
importante e a todo instante somos tentados pelo ego, uma espécie de demônio
interno, um tagarela, por isso é importante a concentração.
Chegada a hora, fomos convocados a tomar a Ayahuasca, nome
quíchua de origem inca que significa VINHO DAS ALMAS, um psicoativo, e o seu
efeito é enteógeno, que faz com que as pessoas vejam o divino dentro de si, na
verdade ela abre e expande a consciência, na qual tudo fica muito claro, ou
seja, para mim os sons ficam mais nítidos, o aroma é diferente, o colorido é
outro, vem mais claramente o auto-conhecimento e da própria natureza.
Começamos a cerimonia com um mantra para Ganesha,
aquele que tem a cabeça de elefante, toda cerimonia indiana começa com
reverencia a ele, tudo que começamos nos fixamos a ele, sempre abrindo os
caminhos. Tem vários mantras para Ganesha, o mantra que começamos é um mantra
que fala da mãe e do pai de Ganesha, de Parvati e Shiva, a letra é em
sânscrito, então tem que sentir com o coração para entrar nesta energia, pois o
intelecto atrapalha todo o sentir, como eu disse anteriormente, nossa mente é
muito tagarela, não respeita o silencio do coração.
Começadoo mantra, a Ayahuasca começou o seu efeito
em mim, para cada pessoa tem uma maneira diferente de se manifestar, eu sinto
um peso no corpo, o coração acelera, um sufocar, tristeza, alegria, frio,
calor, medo e ao mesmo tempo muita liberdade, meu corpo fica em êxtase, como se
estivesse tendo orgasmos múltiplos e infinitos, é tão forte e intenso que dá
medo, vontade de dançar, cantar. Passado esta fase, geralmente vou para um
passado que depois eu não me lembro muito bem, tudo muito familiar, como se
estivesse anteriormente neste estado. Fui me deixando envolver na energia de
Ganesha, porém a energia mais forte foi sentir a própria mãe de Ganesha,
Parvati, na verdade eu entrei em contato com o arquétipo da mãe divina.
Senti o envolvimento amoroso para conceber Ganesha, um
amor verdadeiro, de preparar a vida a partir da minha vida, das minhas células,
das minhas energias. Senti a gestação de um ser iluminado dentro de mim, uma
divindade respirando o mesmo ar que eu estava respirando, nutrindo a perfeição,
eu era a perfeição, não tinha diferença entre eu e a minha gestação, tudo muito
lindo e divino, mas tinha algo que nem mesmo a divindade pode deixar de sentir
e eu acredito que seja o sentimento de todas as mães, o apego pelo
fruto de si.
O amor foi tomando conta e com ele todo o apego de si
no outro ser, mas o momento foi se aproximando e cada vez mais o não deixar
este ser nascer foi tomando conta de mim, ele viria ao mundo e eu teria de
conviver sem ele, ou com ele fora de mim, até então a energia que se fundira
teria que se separar e a separação seria muito dolorosa.
O momento chegou e Ganesha, meu filho, corpo do meu
corpo, meu próprio eu, teria que se separar de mim, deixar de ser eu, e ia se
aproximando o momento e o momento chegou e com ele muito sofrimento para parir,
não uma dor comum, mas no sentimento de separação, todo o universo pedia para
que eu deixasse Ganesha nascer, a existência precisaria dele e eu teria
de consentir este nascimento, eu hesitava, até que fui vencido pelo apelo da
vida, senão eu e Ganesha morreríamos. Eu o deixei nascer e com ele, eu nasci
junto, escutava que todos no universo cantavam com toda força e alegria jamais sentida por
mim, Ganesha nasceu, o universo nasceu, a vida seria outra, a beleza seria
outra, o amor nasceu e está junto comigo e com o universo, o bem, o amor, a vida
venceu o mau, o egoísmo, o medo e a morte.
Cantei com tanta alegria o mantra que remove os obstáculos
de minha vida, talvez tenha sentido o maior apego que existe na humanidade, que
é o apego das mães pelos filhos, que não é apego na verdade é a vida devotada à
vida.
Eu cantei: OM GAN GANAPATAYE NAMAH – Pedindo,
suplicando, conectando com esta força para remover os obstáculos que eu
coloquei em minha vida, meus apegos, meu egoísmo, deixei Ganesha nascer em mim,
deixei Deus nascer em mim e deixar que Deus nasça em todos nós, removi os
obstáculos de minha ignorância interna, deixando o amor finalmente vencer.
O amor sempre vence, sempre.

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