quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Nos tempos de eleições


Olhei para um lado e para o outro e percebi um lugar vago à minha espera.

Instalei-me então confortavelmente em uma pequena mureta, deixando o corpo repousar um pouco, enquanto esperava por um amigo na Avenida Paulista. Algo passava pela minha cabeça e pelos meus pés, para não dizer - pelo meu corpo, algo resvalava e eu ressentia em minhas pernas um vento volumoso, olhei para conferir e vi o motivo do volume, e pude notar a quantidade de folhetos que nos tempos de eleições é arrastado para perto de pessoas inocentes como eu, além de tudo vai deixando a cidade mais suja. Peguei sem querer pegar um mísero papelzinho que se instalara teimosamente em meu pé, peguei, pois não sou dado a recolher estas propagandas, meu lado anarquista não permite, peguei por necessidade, queria mesmo era se livrar do “santinho”, que de santo não tinha nada.

Talvez eu estivesse fazendo parte de um publico alvo, alvo da sujeira para que estes tais “santos” se elejam, talvez uma predestinação, uma perseguição pelos pequenos folhetos, não sei o que é pior, um "chiclete" na sola do sapato ou estes terríveis panfletos de eleições. Não era paranoia, estava sim sendo seguindo por um certo “santinho”, que reconheci não pelo nome, mas sim pelo número, talvez “cabalístico”, pois reparei  pela disposição em que os números foram colocados, pois ele poderia ser lido tanto de trás para frente, como da maneira normal, dando a impressão de ser uma força divina, os menos avisados e os supersticiosos teriam estes pensamentos, números estes escolhidos pelo candidato para provocar esta impressão nas pessoas. 

Penso eu - que democracia vivemos? Na qual as TVs e as rádios são obrigadas a transmitir as propagandas “eleitoreiras” sem direito de escolha, violentando os olhos e os ouvidos, bombardeando a mente de todo cidadão de bem, uma democracia na qual as pessoas são obrigadas a votar, correndo o risco de perder os seus direitos, e pior de tudo temos os ditos “santinhos” tirando a paz daqueles como eu, em um momento de espera e pura reflexão do sentido da vida, nos faz voltar a esta realidade crua e tudo isso proporcionado pela demora de um amigo de um tempo distante.

Já tinha levantado umas dez vezes do confortável “trono”, a minha mureta improvisada, e nada de meu amigo aparecer, apenas ele para me tirar da angustia mental que eu estava vivendo, causada pelo pequeno papel que vinha com os números escritos.

Pensei – “poderia muito bem jogar no bicho, mas lembrei de que eu não jogo no bicho”.

Pensei novamente – “talvez na loteria, mas se eu sair meu amigo talvez apareça e ao ver a minha ausência vá embora, não seria justo”.

Pensamentos e mais pensamentos vinham, e nada do numero sair de minha cabeça, sabia que não votaria no número deste tal candidato, seria uma grande tolice a minha, me deixar influenciar por alguns números, justamente no dia em que eu veria meu velho amigo, e estes infernais “santinhos” com uns números escritos, não seria mais importante que a amizade.

Em tempos de eleições esperei por um amigo querido que os longos anos nos separaram, mas em um breve momento nos fez atar aquilo que parecia perdido no passado.

O meu amigo não demorou muito, mas parecia eterna a minha espera, causada pelos números para depois serem abandonados por um abraço caloroso e muita conversa sobre os momentos vivenciados, verdadeira máquina do tempo e se atualizar de todo o tempo distante.

Talvez vocês que estão lendo esta breve crônica queiram saber quais são estes números que tanto me afligiu, garanto que não é o “666”, bem que poderia ser, porém posso afirmar que não é, pois os números dos candidatos são de cinco dígitos e não de três. Gostaria de escrever e compartilhar com todos os tais números “cabalísticos”, mas fui informado que não posso escrever os terríveis algarismos, senão seria propaganda eleitoral e mesmo se pudesse, eu não gostaria de fazer.

O nome de meu amigo posso dizer – Ademir, pois ele não é candidato a nada nestes tempos de eleições.