Olhei para um lado e
para o outro e percebi um lugar vago à minha espera.
Instalei-me então
confortavelmente em uma pequena mureta, deixando o corpo repousar um pouco, enquanto
esperava por um amigo na Avenida Paulista. Algo passava pela minha cabeça e pelos
meus pés, para não dizer - pelo meu corpo, algo resvalava e eu ressentia em
minhas pernas um vento volumoso, olhei para conferir e vi o motivo do volume, e
pude notar a quantidade de folhetos que nos tempos de eleições é arrastado para
perto de pessoas inocentes como eu, além de tudo vai deixando a cidade mais suja.
Peguei sem querer pegar um mísero papelzinho que se instalara teimosamente em
meu pé, peguei, pois não sou dado a recolher estas propagandas, meu lado
anarquista não permite, peguei por necessidade, queria mesmo era se livrar do “santinho”,
que de santo não tinha nada.
Talvez eu estivesse
fazendo parte de um publico alvo, alvo da sujeira para que estes tais “santos”
se elejam, talvez uma predestinação, uma perseguição pelos pequenos folhetos,
não sei o que é pior, um "chiclete" na sola do sapato ou estes terríveis
panfletos de eleições. Não era paranoia, estava sim sendo seguindo por um certo
“santinho”, que reconheci não pelo nome, mas sim pelo número, talvez “cabalístico”,
pois reparei pela disposição em que os
números foram colocados, pois ele poderia ser lido tanto de trás para frente,
como da maneira normal, dando a impressão de ser uma força divina, os menos
avisados e os supersticiosos teriam estes pensamentos, números estes escolhidos
pelo candidato para provocar esta impressão nas pessoas.
Penso eu - que democracia
vivemos? Na qual as TVs e as rádios são obrigadas a transmitir as propagandas “eleitoreiras”
sem direito de escolha, violentando os olhos e os ouvidos, bombardeando a mente
de todo cidadão de bem, uma democracia na qual as pessoas são obrigadas a
votar, correndo o risco de perder os seus direitos, e pior de tudo temos os
ditos “santinhos” tirando a paz daqueles como eu, em um momento de espera e
pura reflexão do sentido da vida, nos faz voltar a esta realidade crua e tudo
isso proporcionado pela demora de um amigo de um tempo distante.
Já tinha levantado umas
dez vezes do confortável “trono”, a minha mureta improvisada, e nada de meu
amigo aparecer, apenas ele para me tirar da angustia mental que eu estava
vivendo, causada pelo pequeno papel que vinha com os números escritos.
Pensei – “poderia muito
bem jogar no bicho, mas lembrei de que eu não jogo no bicho”.
Pensei novamente – “talvez
na loteria, mas se eu sair meu amigo talvez apareça e ao ver a minha ausência vá
embora, não seria justo”.
Pensamentos e mais
pensamentos vinham, e nada do numero sair de minha cabeça, sabia que não
votaria no número deste tal candidato, seria uma grande tolice a minha, me deixar
influenciar por alguns números, justamente no dia em que eu veria meu velho
amigo, e estes infernais “santinhos” com uns números escritos, não seria mais
importante que a amizade.
Em tempos de eleições
esperei por um amigo querido que os longos anos nos separaram, mas em um breve
momento nos fez atar aquilo que parecia perdido no passado.
O meu amigo não demorou
muito, mas parecia eterna a minha espera, causada pelos números para depois serem
abandonados por um abraço caloroso e muita conversa sobre os momentos
vivenciados, verdadeira máquina do tempo e se atualizar de todo o tempo
distante.
Talvez vocês que estão
lendo esta breve crônica queiram saber quais são estes números que tanto me afligiu,
garanto que não é o “666”, bem que poderia ser, porém posso afirmar que não é,
pois os números dos candidatos são de cinco dígitos e não de três. Gostaria de
escrever e compartilhar com todos os tais números “cabalísticos”, mas fui
informado que não posso escrever os terríveis algarismos, senão seria
propaganda eleitoral e mesmo se pudesse, eu não gostaria de fazer.
O nome de meu amigo
posso dizer – Ademir, pois ele não é candidato a nada nestes tempos de eleições.
