segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Cenas Paulistanas - Café da Manhã




Acordar cedo nunca foi o meu forte, mas o meu fraco é um bom café da manhã.


Tenho que confessar que a pressa para se chegar ao trabalho não permite que o café da manhã seja saboreado em casa. A solução encontrada é na rua, em qualquer lugar. Hoje em dia a cidade tem muitos ambulantes que aproveitam a oportunidade para ganhar algum, eles colocam a banca nas calçadas em pontos estratégicos, perto de alguma estação de trem ou metro e também nos terminais de ônibus, onde as pessoas ainda com pressa pagam e pegam o café com leite e uma gorda fatia de bolo, que pode ser de milho ou de cenoura, a passos largos vão para o trabalho, carregando em uma das mãos, o copo e na outra o bolo, tudo isto para não perder tempo.


Eu que sou adepto do “mais cinco minutos na cama”, sempre saio atrasado e o jeito é mesmo saborear o café da manhã fora de casa.


Outra opção mais tranquila para aqueles que não estão com tanta pressa é o boteco, onde você pode ter a sorte de ficar em pé no balcão, ou ter o luxo de se sentar, e pedir ao rapaz do outro lado do balcão, um “pingado”, que é o café com um pouco de leite, como se estivesse pingando o leite, virando assim o “pingado”, com tempo vem à intimidade de pedir para ele caprichar na “média”, que é um pão com manteiga aquecido na chapa, outro pedido sem usar a chapa é o “pão na graxa”.


Como na maioria das vezes, não consigo parar em um desses botecos, pois a pressa e a quantidade de pessoas são grandes obstáculos, senão me atraso ainda na minha entrada no trabalho.
As padarias em São Paulo é uma excelente pedida para aqueles que têm tempo de sobra para degustar um delicioso pão de queijo quentinho, um croissant simples ou de queijo, também tem o café expresso, o cappuccino, o chocolate quente, e os chás de inúmeras infusões. Algumas padarias são um sonho, realmente elas são maravilhosas seu rico Buffet, com sucos variados e frutas da época, quase um almoço.
A minha luta do dia-a-dia contra o tempo e o mau humor do chefe me faz com que eu fique apenas nos vislumbres de quem sabe um dia, acordar com tempo de sobra e me esbaldar em uma destas maravilhasas padarias.
Acredito que no topo dos cafés da manhã estejam alguns restaurantes, que são chiques e caros, eles estão além daquilo que eu posso sonhar, mas um dia na vida vale apena gastar um pouco mais, e economizar no almoço, porque com um café da manhã tão rico, nem precisaria de almoço, apenas um lanche à tarde.


Chego ao trabalho em cima da hora, sem tempo de parar e tomar um café da manhã. Já ia me esquecendo, na verdade deixei para o fim, de dizer que tem os serviços de entregas, que são feitos para aqueles que, como eu, que chegam sem tempo de parar, o jeito é ligar para algum estabelecimento e fazer o pedido.


Bom apetite!

domingo, 4 de setembro de 2011

Cenas Paulistanas - A praia dos paulistanos


São Paulo não tem praia, isso é fato, mas não é obstáculo para que as pessoas improvisem a sua praia. Os parisienses transformaram nas margens do rio Sena, uma pequena praia, aqui em São Paulo também não tem o Sena, mas temos o parque do Ibirapuera, a nossa praia.

Acordei e dei uma espiada pela janela, o dia estava lindo, com um céu azul, podia escutar os pássaros cantando na natureza, uma verdadeira celebração e eu não poderia ficar de fora. Notei que estava frio, mas nem tanto, com um "jeitão" de Primavera, não demorou muito e começou a subir a temperatura, se tornando Verão, mas é Inverso em São Paulo, ou fim do Inverno.
Aproveitei a subida da temperatura e a ausência da chuva, para ir a até o Parque do Ibirapuera, andar, ler e deixar fluir a vida.

Passei a mão no agasalho, pois nunca se sabe, o tempo em São Paulo costuma virar, sempre nos surpreendendo, pensamos que vai esquentar, esfria, e às vezes, nos parece que vai esfriar, esquenta.

Fui eu pelo caminho, rumo ao Ibirapuera, equipado do agasalho, do livro e da água fresca. A temperatura subira demais, dando inveja a qualquer dia de verão, entrou então em cena a água fresca, ela veio em um momento oportuno e aliviou o meu princípio de sede.

Não demorou muito até chegar ao Parque, fui cruzando ruas, contornando os canteiros de obras, pulando e tropeçando nas pedras e entulhos das calçadas mal acabadas, fui desviando das cadeiras dos restaurantes que são colocadas na calçada, que aos poucos vão invadindo o caminho daqueles que trafegam. Um verdadeiro estorvo. Já ia me esquecendo de citar que as calçadas estão diminuindo e as ruas vão aumentando dando prioridade aos automóveis. Andar para ir ao parque é uma verdadeira aventura urbana, apenas para tirar o estresse, a mesma que foi adquirida ao longo do caminho.

De longe eu conseguia ver o parque, e tive a sensação de que a população de São Paulo estava lá, juntamente com a população canina, uma verdadeira festa.

Mal entrei no parque e pude sentir as areias da praia de São Paulo, talvez a areia de uma construção que o vento trouxera.

Andei em busca de um cantinho.

Eu disfarçadamente fui observando as pessoas, e vi de tudo, pessoas com suas famílias, amigos, ou solitariamente com seus livros e água, meu caso. Pessoas corriam, com suas bicicletas, patins, skate e a pé. Uns carregavam violão para acompanhar o “pic-nic”, uma explosão de alegria, de todas as cores e tribos.

Andar por andar andei e de tanto selecionar um cantinho, encontrei uma frondosa árvore me convidando aos seus pés, antes verifiquei se não tinha crianças brincando de bola, não queria levar uma bolada.

Estava quente, mas a sombra da árvore aliviava, abri meu livro e me dei o presente de uma boa leitura, destas que nos transporta para além do mais além, fui ficando envolvido com a leitura e só fui tirado da minha abstração com uma sensação fresca na minha bochecha esquerda, estranhei o ocorrido, pois além de sentir o frescor, senti também um tanto áspera, olhei e levei um susto, era um cachorro que simpaticamente me deu umas lambidas, logo veio a sua dona em socorro do animal, um tanto envergonhada pedindo desculpas, mas com um leve sorriso que ela não pode conter pela cena engraçada.

Voltei à leitura deliciosa, antes sequei a minha face molhada pela baba canina.

O tempo estava realmente bom para passear no Ibirapuera, os ambulantes faturando, no sorvete e na água mineral, a criançada correndo, brincando, os casais exalavam paixão. Todos estavam contentes com a praia improvisada.

Fui tirado da leitura novamente, mas não por um cachorro beijoqueiro e sim pela queda da temperatura, senti na pele que era hora de voltar, estava esfriando, as pessoas estavam tomando o rumo de suas casas, sabiam que no dia seguinte seria segunda-feira, uma semana de trabalho os esperava para novamente voltar a sua querida praia, no fundo todos estavam felizes por um dia em sua praia paulistana, a mesma que a noite seria fechada.

É... a praia paulistana fecha todos os dia para manutenção.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Nascimento de Ganesha em mim




Esta crônica foi escrita no dia de Lakshmi do ano de 2010, mas continua atual para mim.
O dia escolhido para entrar em comunhão com a natureza, foi exatamente quando estava se abrindo um portal na Índia, a entrada da prosperidade, dia da mãe divina Annapurna e Lakshmi, os aspectos da abundancia dos alimentos e da prosperidade material, para termos mais tempo e nos devotar a existência que podemos chamar de Deus.

Cheguei mais cedo e fui para o meu lugar habitual, perto dos músicos, perto do flautista, gosto de ficar escutando o som doce da flauta.

Coloquei em meu serviço o conhecimento da respiração, fiz para alcançar uma concentração maior, pois é muito importante e a todo instante somos tentados pelo ego, uma espécie de demônio interno, um tagarela, por isso é importante a concentração.

Chegada a hora, fomos convocados a tomar a Ayahuasca, nome quíchua de origem inca que significa VINHO DAS ALMAS, um psicoativo, e o seu efeito é enteógeno, que faz com que as pessoas vejam o divino dentro de si, na verdade ela abre e expande a consciência, na qual tudo fica muito claro, ou seja, para mim os sons ficam mais nítidos, o aroma é diferente, o colorido é outro, vem mais claramente o auto-conhecimento e da própria natureza.

Começamos a cerimonia com um mantra para Ganesha, aquele que tem a cabeça de elefante, toda cerimonia indiana começa com reverencia a ele, tudo que começamos nos fixamos a ele, sempre abrindo os caminhos. Tem vários mantras para Ganesha, o mantra que começamos é um mantra que fala da mãe e do pai de Ganesha, de Parvati e Shiva, a letra é em sânscrito, então tem que sentir com o coração para entrar nesta energia, pois o intelecto atrapalha todo o sentir, como eu disse anteriormente, nossa mente é muito tagarela, não respeita o silencio do coração.

Começadoo mantra, a Ayahuasca começou o seu efeito em mim, para cada pessoa tem uma maneira diferente de se manifestar, eu sinto um peso no corpo, o coração acelera, um sufocar, tristeza, alegria, frio, calor, medo e ao mesmo tempo muita liberdade, meu corpo fica em êxtase, como se estivesse tendo orgasmos múltiplos e infinitos, é tão forte e intenso que dá medo, vontade de dançar, cantar. Passado esta fase, geralmente vou para um passado que depois eu não me lembro muito bem, tudo muito familiar, como se estivesse anteriormente neste estado. Fui me deixando envolver na energia de Ganesha, porém a energia mais forte foi sentir a própria mãe de Ganesha, Parvati, na verdade eu entrei em contato com o arquétipo da mãe divina.

Senti o envolvimento amoroso para conceber Ganesha, um amor verdadeiro, de preparar a vida a partir da minha vida, das minhas células, das minhas energias. Senti a gestação de um ser iluminado dentro de mim, uma divindade respirando o mesmo ar que eu estava respirando, nutrindo a perfeição, eu era a perfeição, não tinha diferença entre eu e a minha gestação, tudo muito lindo e divino, mas tinha algo que nem mesmo a divindade pode deixar de sentir e eu acredito que seja o sentimento de todas as mães, o apego pelo fruto de si.

O amor foi tomando conta e com ele todo o apego de si no outro ser, mas o momento foi se aproximando e cada vez mais o não deixar este ser nascer foi tomando conta de mim, ele viria ao mundo e eu teria de conviver sem ele, ou com ele fora de mim, até então a energia que se fundira teria que se separar e a separação seria muito dolorosa.

O momento chegou e Ganesha, meu filho, corpo do meu corpo, meu próprio eu, teria que se separar de mim, deixar de ser eu, e ia se aproximando o momento e o momento chegou e com ele muito sofrimento para parir, não uma dor comum, mas no sentimento de separação, todo o universo pedia para que eu deixasse Ganesha nascer, a existência precisaria dele e eu teria de consentir este nascimento, eu hesitava, até que fui vencido pelo apelo da vida, senão eu e Ganesha morreríamos. Eu o deixei nascer e com ele, eu nasci junto, escutava que todos no universo cantavam com toda força e alegria jamais sentida por mim, Ganesha nasceu, o universo nasceu, a vida seria outra, a beleza seria outra, o amor nasceu e está junto comigo e com o universo, o bem, o amor, a vida venceu o mau, o egoísmo, o medo e a morte.

Cantei com tanta alegria o mantra que remove os obstáculos de minha vida, talvez tenha sentido o maior apego que existe na humanidade, que é o apego das mães pelos filhos, que não é apego na verdade é a vida devotada à vida.

Eu cantei: OM GAN GANAPATAYE NAMAH – Pedindo, suplicando, conectando com esta força para remover os obstáculos que eu coloquei em minha vida, meus apegos, meu egoísmo, deixei Ganesha nascer em mim, deixei Deus nascer em mim e deixar que Deus nasça em todos nós, removi os obstáculos de minha ignorância interna, deixando o amor finalmente vencer.

O amor sempre vence, sempre.