quinta-feira, 28 de julho de 2011

Meu amigo Cantuária


Nos anos oitenta, eu trabalhava em uma loja de roupas na Rua Barão de Itapetininga, perto da Praça da República, um lugar pitoresco que outrora era conhecido como a “boca do luxo”, perto da “boca do lixo”, mas na época em que eu trabalhava na “Barão”, era conhecida apenas como a “boca do lixo”, esta unificação das bocas era pelo fato do centro ter virado um lixo, um abandono dos políticos da cidade, pois a atenção era para outras regiões mais nobres da cidade.

O centro da cidade de São Paulo, além da poluição latente e o cinza que decorava os arranha-céus, outro grande detalhe era a notável pressa das pessoas, corriam para ir ao trabalho, corriam para almoçar, para lanchar e para ir embora, sempre estavam atrasadas, correndo atrás do tempo, suas vidas eram ajustadas com os ponteiros dos relógios, nunca tinham tempo para nada e deixavam a vida para depois.

Eu acabava me divertindo com as figurinhas carimbadas que por felicidade eu conhecia pessoalmente ou por observar. Desde aquela época eu tinha interesse nas crônicas desta cidade que não pára nunca.
Destas figurinhas carimbadas, me lembro com saudades de uma figurinha em especial, a de um amigo, ele era uma figurinha rara, destas figurinhas que só ouvimos dizer e que duvidamos que exista realmente. Ele um eletricista de mão cheia e seu nome Cantuária. O Cantuária, além de excelente profissional, era uma ótima companhia, gostava de um bom papo, ele, morador do bairro do Pari, vinha com várias estórias divertidas de sua juventude no bairro, mas nem tudo era divertido na vida deste amigo, ou na vida dos seus amigos.

Certa vez um outro eletricista, um grande amigo do Cantuária apareceu na loja e estava um tanto cabisbaixo e nos falou:
- Tenho uma notícia triste para todos.
Ficou o suspense no ar.

- O que foi? Todos falaram em uníssono.

- O Cantuária faleceu!

Todos ficaram comovidos com a notícia, logo o “Cantu”, essa era à maneira de seus amigos mais chegados o chamarem. Gostaria que os leitores entendessem, todos tinham o direito de morrer, mas o “Cantu” não.

A comoção foi geral, mesmo aqueles que não conheciam o Cantuária, ficaram tristes, pois ele era uma lenda viva, agora morta, na loja.

Recolhemos-nos em luto em memória do amigo “Cantu”, estávamos realmente tristes.

Lembro-me que o seu grande amigo, começou a fazer o trabalho da parte elétrica na loja.

Todos queria saber, quando e a causa do falecimento, mas infelizmente seu amigo, e digo mais, eles eram grandes amigos, não sabia nos dizer com detalhes, também soubera de terceiros o triste fato.

Passado um ano, todos na loja superaram a dor da perda de um amigo querido.

Um ano depois, às vésperas do natal, a loja abarrotada de pessoas, uma loucura, onde quem estava fora não entrava e quem estava dentro quase que não saia, e toda esta loucura era para comprar os presentes para os entes queridos. No ponto alto das vendas, quando estávamos todos ocupados em mostrar, embrulhar, cobrar e entregar as roupas, todos escutaram um grito.

- Meu Deus! Era o grito estridente da vendedora que ficava perto da porta, logo em seguida ela caiu desmaiada.

- Corremos para acudi-la e ela estava pálida, parecia ter visto um fantasma, e foi isso que ela falou apontando para a porta. Era o Catuária, o nosso “Cantu”, ou alguém muito parecido, um irmão gêmeo, um primo distante.

Criei coragem e fui perguntar a este senhor o quê ele desejava. Para meu espanto e felicidade, era o próprio, vindo do mundo dos mortos, ressuscitava naquele natal e estava nos visitando.

Ele veio cheio de alegria, era o velho Cantuária, mais vivo que muitos julgam estar, me deu um abraço e fui logo perguntando.

- É você mesmo ou um fantasma?

Era o velho “Cantu” vivo.

Contamos toda a estória e soubemos que aquele grande amigo do Cantuária, era um amigo da onça, ele tinha espalhado a morte do amigo em dezenas de lugares, para ficar com o trabalho do Cantuária, mesmo morto o “Cantu” zombava de nós e aquele seu “amigo” desapareceu, nunca mais foi visto, sempre que encontrávamos o Cantuária, relembrávamos o ano em que ele morreu, com esta estória cheguei a uma conclusão: amigos nunca morrem.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O fantasma da noite

Nunca tive o costume de acordar no meio da noite, nem mesmo para ir ao banheiro, poderia estar com fome ou mesmo com sede, não que eu tenha medo ou preguiça, era mesmo o sono pesado que me embalava em seus braços, um sono pesado que acabava sendo mais forte do que a minha força de vontade.

Certa vez em uma terça-feira gorda, véspera de feriado, não sei dizer ao certo se era um feriado religioso ou o dia da pátria, me lembro apenas de que era uma terça-feira de insônia, e fui assistir televisão esperando pelo sono pesado que não me vinha, quando menos esperava pestanejei mais forte, as pálpebras colaram e cai no sono, para em seguida acordar desnorteado, abrindo assim um dos olhos e estranhei, não sabia dizer ao certo onde estava, então levantei, e fui para o quarto, antes tive apenas o ímpeto de desligar a televisão e na escuridão da casa fui para o quarto cambaleando, sem perceber o rumo dos meus passos, que na verdade estava indo para cozinha, como o sono era mais forte não vi que tinha chegado a cozinha.

Abri um dos olhos, por pura preguiça de abrir os dois, e pude ver no canto do suposto quarto, algo branco arrastando, fiquei surpreso com a aparição, me parecia um fantasma, um fantasma mirim, um fantasma que rastejava, pensei logo que tipo de fantasma é este que rasteja? Uma alma penada? Quando dei conta deste ser, logo abri os dois olhos e fiquei atento para aquela aparição, logo eu que nunca levei muito a sério estas coisas de fantasmas.

Lentamente o fantasma ia para minha direção e eu continuava parado, parado sim, paralisado não, pois não estava com medo e sim surpreso com a minha visão, ele chegava cada vez mais perto de mim, e pude ver que era um pequeno lençol colorido, que fantasma é esse que vem todo colorido? Começou a me intrigar este fantasma, comecei a desconfiar da minha sanidade, talvez estivesse assistindo muita televisão, ou estava sonhando, lembrei-me de uma velha tática que poderia dar certo, um grande beliscão e assim acordar, me belisquei e não acordei, pois já estava acordado e muito bem acordado, mas nada evitava que a entidade viesse para mais perto, foi quando o lençol ficou preso aos pés do fogão e pude ver que o fantasma era sim a pequena Nina, a cachorrinha da casa, que dormia sempre enrolada em um pequeno lençol colorido e quando escutou que alguém estava na cozinha foi receber e nem percebeu que estava enrolada em seu lençol, sempre tivera o sono pesado, mas naquela terça-feira gorda ela saiu desnorteada para a cozinha e se assustou ao me ver desnorteado na cozinha em uma terça-feira gorda.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A escrita e o escritor


Todo dia é dia do escritor e da sua doce magia, a escrita.

Para mim ele é uma espécie de mago na sua arte, um alquimista da escrita, transmutando a realidade vivida pela realidade impossível, posso arriscar a dizer que ele é o maior responsável, pelo menos na minha vida, de soltar as amarras da imaginação.

O escritor tem a sua principal ferramenta, a sua inspiração, levantando a ponta da cortina, nos revelando um universo sem igual, se tornando um iluminado e às vezes um maldito, nos leva à miséria e ao maravilhoso, nos levando às lágrimas e vem a tona também a raiva escondida, nos faz amar e odiar nesta brincadeira que é o seu oficio.

Eu ficava sonhando quando me contavam as "estória de contos de fada" e outras fábulas. Na minha infância ficava ansioso para aprender a ler, até que finalmente aprendi a ler.

Quando eu era um craque da leitura, ninguém me segurava, lia tudo que aparecia na minha frente, anúncios, revistas e principalmente livros que faziam a minha imaginação voar.

Me divertia e aprendia muito com as aventuras de Tom Sawyer e a turma do Sítio do Pica-pau Amarelo. Aprendia principalmente que poderia conhecer o mundo através das linhas escrita por autores diversos, eu fui me tornando íntimos dos personagens e vivia com eles cada alegria e drama, me tornava cada vez mais amigo dos escritores.

Eram momentos mágicos que nada poderia pagar, momentos eternos que duram até hoje quando abro um livro e saiu viajando na literatura.

De tanto ler e reler, sonhar e viajar, meu coração foi se enchendo com esta magia e acabei fazendo as minhas crônicas, contos e textos, convidando a todos embarcar nesta viagem da escrita pelo seu escritor.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Um olhar distante do amor

‎"A medida do amor é amar sem medida"

Vitor Hugo

Fragmentos


A primeira vista, ela é vista de longe quando está perto.

A segunda vista perde-se de vista quando se está perto. Uma das telas da série Torre Eiffel, de Delaunay, de 1909


Robert Delaunay, nascido em 1885, foi um prolífico cubista francês que em sua obra madura evoluiu para o orfismo, uma das primeiras pinturas abstratas a se desenvolver a partir das pesquisas cubistas.